Mitologia e propaganda andam de mãos dadas. Toda epopéia, cada mitologia nacional, cada poema épico e cada cosmogonia são pratos cheios para a propaganda política. É só pensar no uso que delas fizeram os regimes totalitários no início do século passado.

De todas essas mitologias, a Cristã é sem dúvidas a mais influente do lado ocidental do globo. É impossível falar de propaganda política e não cruzar com o cristianismo. A própria palavra “propaganda” nasce dentro da Igreja, no contexto da contra-reforma.

Pois bem. A tal “Revolução Solidária” de Boulos e Erundina não parecem fugir disso. A ideia de refundação do mundo (revolução) sobre novas bases morais (solidária) é a essência do cristianismo. Um novo pacto social para uma comunidade de irmão com os quais sentamos à mesa.

Embora pareça mais cristão que a Campanha da Fraternidade, não acho que estejam querendo disputar o eleitorado cristão, apesar de todo o oportunismo. O problema é que sem ser muitos consequentes e sem firmeza programática e ideológica, deixando-se guiar pelas oportunidades eleitorais, abrem espaço para toda sorte de memória discursiva que entra pela janela. Ou melhor, o moralismo cristão está nas entrelinhas da indignação do pequeno-burguês.

que parece, aponta para a construção de uma alternativa ao “ódio bolsonarista”. Segundo, é vazio suficiente para que o morador da Vila Madalena e a Hanna Arendt do Leblon possam projetar sua individualidade nele (pois só reconhecem a si mesmos e nada além). Essa projeção é a chave a identificação e os pós-modernos adoram brincar com ela. Por isso tantas organizações tem usados em seus lemas e nomes palavras como “podemos”, “juntos”, “mais”, “novo” e tantas outras que sem predicados não passam de buracos vazios prontos para esconder cobras.

Para falar a verdade, nem é tão novidade assim esse slogan. Todo mundo sabe que Boulos, desde 2018 e junto com a ala direita do PSOL, sequestrou o partido para transformá-lo em um puxadinho do PT. Boulos quer ser herdeiro do lulismo e não esconde isso. Pois bem, se em 2002 a “esperança venceu o medo” (Lula) e se em 2018 a “verdade venceria a mentira” (Haddad), nada mais justo do que a “solidariedade vencer o ódio”.

O problema disso tudo é que o tal slogan franciscano não é cristão apenas na forma. É também no conteúdo.

Explico. Opor solidariedade ao ódio é, em última instância, reduzir os problemas sociais, econômicos e políticos do país a um problema moral. Como fazem os cristão, que veem tudo sob a ótica da moral. Ora, a escassez de leitos hospitalares em meio à pandemia é um problema moral, de solidariedade? Óbvio que não. A problema das grandes fortunas não é uma questão de egoísmo ou ganância (logo, moral). Existe toda uma estrutura por trás que se reproduz independentemente da ação dos indivíduos.

Mas o cristianismo não é só moralista. É também individualista. “Também todos aqueles que tiverem deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras, por causa do meu Nome, receberão cem vezes mais e herdarão a vida eterna” – Mateus 19:29. A salvação cristã é individual. E ao pregar a salvação exclusivamente pelas ações individuais, o cristianismo assentou as bases para o individualismo liberal.

É isso que o slogan de Boulos e Erundina é: moralista, individualista e pequeno-burguês. Porque a moral pequeno-burguesa é cristã, independente de ser praticante. Por mais que se digam de esquerda, não passam de liberais sentimentalistas e sensibilizados.

E o pior de tudo: é exatamente assim que o bolsonarismo pensa. Tudo para eles é um problema moral e individual. Transformam tudo em uma guerra cultural. Queer museu, educação sexual, universitários maconheiros. Não à toa as pautas de costumes mobilizarem tanto o bolsonarismo que é, igualmente, moralista e individualista.

Nesse sentido, Boulos parece querer repetir não só os slogans do lulismo mas também seus erros. Em 2018 o PT, do alto de sua arrogância, botou na cabeça que Bolsonaro seria o adversário ideal para a candidatura petista. Do ponto de vista moral, seria o perfeito bem contra o mal. E deu no que deu. Boulos quer trilhar exatamente o mesmo caminho: manter tudo no campo moral e construir a narrativa dos solidários contra os odiosos. As ovelhas em meio aos lobos, para ficarmos apenas no evangelho de Mateus.

É tudo jogo de cena dentro da ordem. Existem mais chances de Bolsonaro romper a ordem com uma ditadura do que Boulos rompê-la com uma política progressista. Quem agradece a isso tudo é estrutura econômica que, apesar de todos os embates, passa incólume à disputa. Primeiro a farsa, depois a tragédia, e agora a caricatura.