Essa é uma tradução não autorizada de um artigo escrito por Edward Said para o jornal egípcio Al Ahram [“As pirâmides”]. O texto chegou a ser republicado na Rede de Monitores de Mídia [Media Monitors Network (MMN)] mas, ao que parece, todas as fontes originais estão perdidas. A versão usada para tradução foi encontrada no Wayback Machine do Internet Archive.
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Por Edward Said
Agosto de 2001
Nunca a mídia foi tão influente em determinar o curso da guerra como durante a Intifada de Al-Aqsa, que, no que diz respeito à mídia ocidental, essencialmente se tornou uma batalha de imagens e ideias. Israel já investiu centenas de milhões de dólares no que em hebraico é chamado de hasbara, ou informação para o mundo exterior (ou seja, propaganda). Isso incluiu uma série inteira de esforços: almoços e viagens gratuitas para jornalistas influentes; seminários para estudantes universitários judeus que, durante uma semana em uma propriedade rural isolada, podem ser preparados para “defender” Israel no campus; bombardeio de congressistas com convites e visitas; panfletos e, mais importante, dinheiro para campanhas eleitorais; direcionando (ou, conforme o caso, assediando) fotógrafos e escritores da atual Intifada para produzir certas imagens e não outras; turnês de palestras e concertos de israelenses proeminentes; treinamento de comentaristas para fazer referências frequentes ao Holocausto e à situação de Israel hoje; muitos anúncios nos jornais atacando os árabes e elogiando Israel; e assim por diante. Como muitas pessoas poderosas na mídia e no setor editorial são fortes apoiadores de Israel, a tarefa se torna muito mais fácil.
Embora esses sejam apenas alguns dos dispositivos usados para perseguir os objetivos de todo governo moderno, democrático ou não, desde as décadas de 1930 e 1940 — para produzir consentimento e aprovação por parte do consumidor de notícias — nenhum país e nenhum lobby mais do que o de Israel os usou nos EUA tão eficazmente e por tanto tempo.
Orwell chamou esse tipo de desinformação de newspeak ou doublethink: a intenção de encobrir ações criminosas, especialmente matar pessoas injustamente, com uma camada de justificativa e razão. No caso de Israel, que sempre teve a intenção de silenciar ou tornar os palestinos invisíveis enquanto os roubava de suas terras, isso tem sido, na prática, uma supressão da verdade, ou uma grande parte dela, bem como uma falsificação massiva da história. O que Israel conseguiu provar com sucesso ao mundo nos últimos meses é que é uma vítima inocente da violência e do terror palestino, e que os árabes e muçulmanos não têm outra razão para estar em conflito com Israel, exceto um ódio irredutivelmente irracional pelos judeus. Nada mais, nada menos. E o que tornou essa campanha tão eficaz é um sentimento de culpa ocidental de longa data pelo anti-semitismo. O que poderia ser mais eficiente do que deslocar essa culpa para outro povo, os árabes, e assim sentir-se não apenas justificado, mas positivamente aliviado que algo bom foi feito por um povo muito difamado e prejudicado? Defender Israel a todo custo — mesmo que esteja em ocupação militar de terras palestinas, tenha um exército poderoso e esteja matando e ferindo palestinos numa proporção de quatro ou cinco para um — é o objetivo da propaganda. Isso, além de continuar fazendo o que faz, mas parecendo ser uma vítima da mesma forma.
Sem qualquer dúvida, porém, o sucesso extraordinário desse esforço sem precedentes e imoral se deve em grande parte não apenas ao planejamento e execução cuidadosos da campanha, mas ao fato de que o lado árabe praticamente não existe. Quando nossos historiadores olharem para os primeiros 50 anos de existência de Israel, uma responsabilidade histórica enorme recairá condenavelmente sobre os ombros dos líderes árabes que criminalmente — sim, criminalmente — permitiram que isso continuasse sem mesmo uma mínima ou hesitante resposta [half-hearted response]. Em vez disso, cada um deles lutou contra os outros, ou se apoiou na teoria desesperadamente egoísta de que, tentando bajular o governo americano (até mesmo se tornando clientes dos EUA), garantiriam a si mesmos longevidade no poder, independentemente de os interesses árabes serem atendidos ou não. Essa noção tornou-se tão profundamente arraigada que até mesmo a liderança palestina aderiu a ela, com o resultado de que, à medida que a Intifada continua, o americano médio não tem a menor ideia de que existe uma narrativa de sofrimento e desapropriação palestina pelo menos tão antiga quanto Israel. Enquanto isso, os líderes árabes correm para Washington pedindo proteção americana sem nem mesmo entender que três gerações de americanos foram educadas na propaganda israelense para acreditar que os árabes são terroristas mentirosos e que é errado fazer negócios com eles, muito menos protegê-los.
Desde 1948, os líderes árabes nunca se preocuparam em enfrentar a propaganda israelense nos EUA. Todos os imensos montantes de dinheiro árabe investidos em gastos militares (primeiro em armas soviéticas, depois ocidentais) não deram em nada porque os esforços árabes não foram nem protegidos por informações nem explicados por uma organização paciente e sistemática. O resultado é que literalmente centenas de milhares de vidas árabes perdidas não serviram para nada, nada mesmo. Os cidadãos da única superpotência mundial foram levados a acreditar que tudo o que os árabes fazem e são é desperdiçador, violento, fanático e anti-semita. Israel é “nosso” único aliado. E assim, 92 bilhões de dólares em ajuda desde 1967 passaram inquestionavelmente do contribuinte americano para o estado judeu. Como disse anteriormente, uma total ausência de planejamento e pensamento em relação ao cenário político e cultural dos EUA é em grande parte (mas não exclusivamente) responsável pela quantidade impressionante de terras e vidas árabes perdidas para Israel (subsidiadas pelos EUA) desde 1948, um grande crime político pelo qual espero que os líderes árabes um dia respondam.
Lembro-me de que, durante o cerco de Beirute em 1982, um grande grupo não governamental de empresários palestinos muito bem-sucedidos e intelectuais proeminentes se reuniu em Londres para estabelecer um fundo para ajudar os palestinos em todos os níveis. Com a OLP presa em Beirute e incapaz de fazer muito, sentiu-se que uma mobilização desse tipo poderia nos ajudar a ajudar nós mesmos. Também me lembro que, à medida que os fundos foram rapidamente reunidos, foi tomada uma decisão, após muita discussão, de que metade do dinheiro iria para a informação no Ocidente. Sentiu-se que, uma vez que — como de costume — os palestinos estavam sendo oprimidos por Israel sem quase nenhuma voz levantada no Ocidente para apoiar as vítimas, era imperativo que o dinheiro fosse gasto em anúncios, tempo na mídia, turnês e afins, a fim de tornar mais difícil matar e oprimir ainda mais os palestinos sem reclamação ou conscientização. Isso era especialmente importante, achamos, na América, onde o dinheiro dos contribuintes estava sendo gasto para subsidiar as guerras ilegais, assentamentos e conquistas de Israel. Durante cerca de dois anos, essa política foi seguida; então, por razões que nunca compreendi completamente, os esforços para ajudar os palestinos nos EUA foram abruptamente interrompidos. Quando perguntei por quê, fui informado por um cavalheiro palestino que fez fortuna no Golfo que “jogar dinheiro fora” na América era um desperdício. A filantropia agora continua exclusivamente para os territórios ocupados e o Líbano, onde essa associação faz muito bem, mas muito pouco em comparação com os projetos financiados pela União Europeia e inúmeras fundações americanas.
Algumas semanas atrás, o Comitê Árabe Americano Contra a Discriminação (ADC), de longe a maior e mais eficaz organização árabe-americana nos Estados Unidos, encomendou uma pesquisa de opinião pública sobre as perspectivas atuais dos americanos sobre o conflito palestino-israelense. Uma amostra muito ampla e profunda da população foi pesquisada, com resultados bastante surpreendentes, para não dizer desanimadores. Os israelenses ainda são considerados um povo democrático pioneiro, embora nenhum líder israelense tenha se saído muito bem na pesquisa. Setenta e três por cento do povo americano aprova a ideia de um estado palestino, um resultado muito surpreendente. A interpretação dessa estatística é que, quando você pergunta a um americano educado que assiste televisão e lê jornais de elite se ele se identifica com a luta palestina por independência e liberdade, a resposta é geralmente sim. Mas se a mesma pessoa for perguntada qual é sua ideia sobre os palestinos, a resposta é quase sempre negativa — violência e terrorismo. As imagens dos palestinos parecem ser de que são intransigentes, agressivos e “alienígenas”, ou seja, não são como “nós”. Mesmo quando perguntados sobre os jovens que jogam pedras, que acreditamos ser Davids lutando contra Golias, a maioria dos americanos vê agressão em vez de heroísmo. Os americanos ainda culpam os palestinos por obstruir o processo de paz, particularmente Camp David [1]. Os atentados suicidas são vistos como “desumanos” e são universalmente condenados.
O que os americanos pensam dos israelenses não é muito melhor, mas há uma identificação muito maior com eles como pessoas. O mais perturbador é que quase nenhum dos americanos questionados sabia nada sobre a história palestina, nada sobre 1948, nada sobre a ocupação militar ilegal de 34 anos por Israel. O principal modelo narrativo que domina o pensamento americano ainda parece ser o romance de 1950 de Leon Uris, Êxodo [2]. Ainda mais alarmante é o fato de que as coisas mais negativas na pesquisa foram o que os americanos pensavam e diziam sobre Yasser Arafat, seu uniforme (visto como desnecessariamente “militante”), seu discurso, sua presença.
No geral, então, a conclusão é que os palestinos não são vistos nem em termos de uma história que é deles, nem em termos de uma imagem humana com a qual as pessoas possam facilmente se identificar. A propaganda israelense foi tão bem-sucedida que parece que os palestinos realmente têm poucas, se houver, conotações positivas. Eles são quase completamente desumanizados.
Cinquenta anos de propaganda israelense inquestionável na América nos levaram ao ponto em que, porque não resistimos ou contestamos essas terríveis deturpações de maneira significativa com nossas próprias imagens e mensagens, estamos perdendo milhares de vidas e acres de terra sem incomodar a consciência de ninguém. O correspondente do Independent [The Independent], Phil Reeves, escreveu apaixonadamente em 27 de agosto que os palestinos estão morrendo ou sendo esmagados por Israel e o mundo assiste em silêncio.
Cabe, portanto, aos árabes e palestinos em todo lugar quebrar o silêncio, de maneira racional, organizada e eficaz, não disparando armas ou choramingando ou reclamando. Deus sabe que temos motivos para fazer tudo isso, mas agora a lógica fria é necessária. Na mente americana, analogias com a luta de libertação da África do Sul ou com o destino horrível dos nativos americanos definitivamente não ocorrem. Devemos fazer essas analogias, acima de tudo, humanizando-nos e, assim, revertendo o processo cínico e feio pelo qual colunistas americanos como Charles Krauthammer e George Will ousadamente pedem mais mortes e bombardeios de palestinos, uma sugestão que não ousariam fazer para qualquer outro povo. Por que devemos aceitar passivamente o destino de moscas ou mosquitos, para ser mortos sem sentido com o apoio americano sempre que o criminoso de guerra Sharon decidir eliminar mais alguns de nós?
Para esse fim, fiquei satisfeito ao saber pelo presidente da ADC, Ziad Asali, que sua organização está prestes a embarcar em uma campanha de informação pública sem precedentes na mídia de massa para corrigir [redress] o equilíbrio e apresentar os palestinos como seres humanos — você pode acreditar na ironia de tal necessidade? — como mulheres que são professoras e médicas, bem como mães, homens que trabalham no campo e são engenheiros nucleares, como pessoas que tiveram anos e anos de ocupação militar e ainda estão lutando. (Por acaso, um resultado surpreendente da pesquisa é que menos de três ou quatro por cento da amostra tinha alguma ideia de que havia uma ocupação israelense em primeiro lugar. Então, até mesmo o principal fato da existência palestina foi obscurecido pela propaganda israelense). Esse esforço nunca antes foi feito nos EUA: houve 50 anos de silêncio, que estão prestes a ser quebrados.
Embora seja modesta, a campanha anunciada da ADC também é um grande passo à frente. Considere que o mundo árabe parece estar em um estado de paralisia moral e política, seus líderes sobrecarregados por seus laços tanto com Israel quanto, mais importante, com os EUA, seu povo mantido em um estado de ansiedade e repressão. Como eles e seus corajosos camaradas libaneses fizeram em 1982, quando 19.000 foram mortos pelo poder militar israelense, os palestinos em Gaza e na Cisjordânia estão morrendo não apenas porque Israel tem o poder de fazer isso com impunidade, mas porque, pela primeira vez na história moderna, a aliança ativa entre propaganda no Ocidente e força militar elaborada por Israel e seus apoiadores permitiu a punição coletiva sustentada dos palestinos com dólares dos contribuintes americanos, dos quais 5 bilhões de dólares vão anualmente para Israel. Representações midiáticas dos palestinos os mostram sem história nem humanidade, como pessoas violentas que jogam pedras, e tornaram possível para o obtuso, mas politicamente astuto George Bush culpar os palestinos pela violência. Esta nova campanha da ADC visa restaurar sua história e humanidade, mostrá-los (como sempre foram) como pessoas “como nós”, lutando pelo direito de viver em liberdade, de criar seus filhos, de morrer em paz. Uma vez que até mesmo os vislumbres dessa história penetrem na consciência americana, espero que a verdade comece a dissipar a vasta nuvem de propaganda maligna com a qual Israel cobriu a realidade. Como é claro que a campanha midiática só pode ir até certo ponto, então a esperança é que os árabe-americanos se sintam capacitados o suficiente para entrar na batalha política nos EUA para tentar quebrar, modificar ou desgastar o vínculo que liga a política dos EUA tão fortemente a Israel. E então, podemos ter esperança novamente.
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Notas
[1] Os dois Acordos de Paz de Camp David, foram dois acordos políticos assinados pelo presidente egípcio Anwar Sadat e pelo primeiro-ministro israelense Menachem Begin em 17 de setembro de 1978, após doze dias de negociações secretas em Camp David, o retiro do Presidente dos Estados Unidos em Marilândia. Os dois acordos foram assinados na Casa Branca e testemunhados pelo presidente Jimmy Carter. O segundo (Uma Estrutura para a Conclusão de um Tratado de Paz entre o Egito e Israel) levou diretamente ao tratado de paz Egito-Israel de 1979. Devido ao acordo, Sadat e Begin receberam o Prêmio Nobel da Paz de 1978 compartilhado. O primeiro acordo (Um Marco para a Paz no Oriente Médio), que tratava dos territórios palestinos, foi escrito sem a participação dos palestinos e foi condenado pela Organização das Nações Unidas (ONU). (n.t.)
[2] Exodus é um romance escrito por Leon Uris, e publicado em 1958, nos Estados Unidos. O livro trata da história do navio Exodus, usado por judeus fugitivos do Holocausto, em 1947, que foram da Europa em direção à Palestina. O livro conta a história dos judeus no êxodo ilegal realizado por milhares de pessoas rumo à terra sagrada, Palestina, e a fundação do tão sonhado estado judeu: Israel. Ele relata e descreve detalhadamente o horrível sofrimento dos judeus, a inacabável luta, o sonho alimentado por muita fé e coragem e o tratamento recebido pelo povo judeu na Europa no século XIX e XX. (n.t.)

