Há uma dimensão inevitável do debate de comunicação hoje que é a dimensão técnica. O desenvolvimento tecnológico das últimas décadas proporcionou tantas mudanças nesse aspecto que, muitas vezes, chegamos a pensar que o problema da Comunicação é um problema técnico. O próprio desenvolvimento capitalista da Comunicação como mais um serviço/mercadoria contribui para essa ideologia de tecnicização. Afinal, o profissional técnico é aquele indispensável para o funcionamento do processo, mas que em geral o faz de maneira acrítica. Não por acaso a ideologia burguesa valoriza a figura do técnico. E a redução da Comunicação ao seu aspecto técnico costuma esconder uma postura evasiva, que tenta fugir do debate dos sentidos políticos da Comunicação.
Exemplo maior disso são as “utopias do Vale do Silício”, como diz Morozov, que querem resolver os problemas políticos e de desigualdade do mundo com aplicativos, plataformas e gadgets, como são as smart cities. Mas a proliferação de dispositivos não resolve a questão da concentração de capital gritante existente na infraestrutura de Comunicação, por exemplo. Aliás, pelo contrário. A relativa democratização de comunicação proporcionada pelos avanços tecnológicos veio acompanhada, na mesma ou em maior medida, de um aumento da concentração de capital, especialmente da infraestrutura tecnológica. O oligopólio das big techs é mais concentrado e mais poderoso do que os oligopólios midiáticos do século XX. E é desse debate que se protegem os burocratas quando dizem que comunicação é uma atividade técnica.
Não se trata aqui de negacionismo tecnológico, de afirmar que nada mudou do século XIX para o XXI, embora seja verdade que os princípios de acumulação do capital e produção de riqueza baseada na exploração do trabalho continuem os mesmos. Mas é impossível negar que uma série de aspectos, senão quase a totalidade, da vida cotidiana foi afetada por essas tecnologias. Então, no debate de Comunicação, a questão que se coloca para nós é quais são essas mudanças e, sobretudo, como elas afetam nosso trabalho de comunicação.
Da mesma maneira que o desenvolvimento tecnológico não muda as bases do capitalismo, que continua como um regime de exploração do trabalho e opressão, o mesmo desenvolvimento tecnológico não muda as bases do que seja a Comunicação. E insisto, como já disse em outras oportunidades: não existe política sem comunicação. Nossas dificuldades em comunicação são e continuam sendo políticas justamente porque a comunicação é, essencialmente, política.
Análise de contexto, diagnóstico, mapeamento de públicos e interesse, planejamento estratégico, tático, definição de metas, objetivos e indicadores, construção da mensagem, definição de linha editorial, pauta, definição de equipes, definição de processos, gerenciamento de recursos, controle de tarefas, investimento, cronograma e plano de ação, balanço dos resultados e acúmulo de inteligência. Não existe absolutamente nenhum, reitero, NENHUM elemento aqui que seja estritamente tecnológico. Claro, existem ferramentas que ajudam e elevam a qualidade das etapas, mas pensar a comunicação é um raciocínio essencialmente político, nunca técnico.
O problema tecnológico aparece mais nitidamente no momento de execução do plano de ação, momento em que importam as técnicas de edição, diagramação, programação etc. Ainda assim, trata-se de uma técnica fortemente fundamentada em noções humanísticas como linguagem e estética. Antes e depois disso, a questão tecnológica aparece apenas em abstrato, nunca como determinante. A questão tecnológica só é determinante, ou seja, só pode se tornar um diferencial ou quando o processo de comunicação atingiu um grau razoável de maturidade de processos e planejamento ou, ao contrário, quando está pautado pela completa anarquia e irracionalidade. Nos dois extremos, sim, a tecnologia por si só pode representar um diferencial. Então quando a gente se pergunta como é possível que mesmo com relativo aparato não se atinja resultados razoáveis é porque o problema não é tecnológico, representado aqui pelo aparato em si, mas político, representado pela dimensão estratégico-processual. A tecnologia é sempre meio, nunca fim em si. A inversão dessa relação já é meio diagnóstico de que temos problemas.
A dimensão social da tecnologia
Feita essa ressalva do pensamento comunicacional como um pensamento político e não técnico, podemos abordar uma outra dimensão dos impactos do desenvolvimento tecnológico no processo de comunicação. Aqui, sim, a tecnologia é determinante por si só. Tratam-se dos impactos sociais do uso da tecnologia, que, pelo simples fato de existir e estar disponível para as pessoas representa uma mudança significativa.
E que mudanças são essas? Muitas. Mas vamos nos centrar em como a comunicação ganhou inúmeras camadas de mediação por máquinas e como isso afeta os fluxos comunicacionais. Redes digitais, algoritmos, inteligência artificial, redes neurais, automação… tudo isso transformou completamente nossa maneira de consumir informação. Não pela tecnologia em si, mas porque essas tecnologias dão bases materiais, concretas, para mudanças sócio-culturais. Quero dizer, com o desenvolvimento tecnológico mudam os hábitos de consumo de informação do público e, mudando o comportamento do público, é afetado diretamente o raciocínio de comunicação que existe no planejamento comunicacional. Parte desse debate está contido em outro texto, quando discuti o problema conceitual existente na passagem de “massas” para o conceito de “bolhas”. A base material para essa mudança conceitual é justamente a transformação tecnológica.
Na verdade, é mais apropriado que pensemos em termos dialéticos. O desenvolvimento de uma tecnologia de comunicação se baseia em um entendimento prévio do que seja a comunicação. Mas ao existir de fato, essa própria tecnologia pode dar força material para novos hábitos e também novas concepções de comunicação que, por sua vez, podem inspirar novas tecnologias. Há uma determinação mútua, numa típica espiral dialética. Então, para entendermos o ponto em que chegamos, faço um breve panorama do pensamento comunicacional até aqui.
Do determinismo matemático à fluidez relativista
Os primeiros grandes estudos da Comunicação moderna são os dos anos 1930 e 1940 nos Estados Unidos, produzidos pela chamada Escola de Chicago. Esses estudos tem uma abordagem fortemente funcionalista, corrente filosófica influente na época, e se dedicavam, sobretudo, ao entendimento dos efeitos da comunicação de massa na sociedade. Harold Lasswell, foi quem elaborou a fórmula [Quem => Diz o quê => Em que canal => A quem => Com que efeitos], muito repetida até hoje e, por sua vez, sintetizada no esquema Emissor => Mensagem => Receptor. A fórmula lasswelliana é essencialmente correta, mas seu esquematismo é demasiadamente estreito e unilateral. A começar pelo fato de que é um fluxo de sentido único em que o receptor cumpre um papel meramente passivo, desconsiderando sua interação com a mensagem e contexto de recebimento. Não à toa o esquema vai de encontro à chamada Teoria Hipodérmica (ou “da bala mágica”) que projetavam os efeitos da comunicação como imediatos e totais. Daí a referência à injeção, – a agulha hipodérmica – que inocula um estímulo no receptor e provoca um efeito detectável e mensurável. Nesse modelo, o receptor simplesmente recebe a mensagem, que já tem o seu sentido determinado na hora da emissão, e o efeito está dado. Essa concepção está no fundamento da ideia da passividade e manipulação das massas. Já que os efeitos comunicacionais são imediatos e irresistíveis, meios massivos como o rádio e a televisão poderiam moldar o comportamento de nações.

Veio ao encontro desse modelo, apenas alguns anos após sua publicação, a Teoria Matemática da Comunicação ou, simplesmente, Teoria da Informação, formulada por Claude Shannon e Warren Weaver. Muito mais interessados na comunicação entre máquinas, o modelo formulado por eles pode ser esquematizado como [Fonte => Transmissor / Codificador => Canal => Receptor /Decodificador => Destinatário]. O modelo coloca alguns outros pontos como a existência de um código compartilhado (linguagem) e a necessidade de um codificador / decodificador. Além disso, o modelo também reconhecia a possibilidade de existência de ruído no canal, comprometendo a transmissão e, não menos importante, o processo de feedback após o ato de recepção. Ou seja, um modelo mais dialógico e que não toma os efeitos comunicacionais como imediatos ao considerar um parâmetro capaz de interferir na eficiência da transmissão. A existência demasiada de ruído no canal poderia simplesmente comprometer totalmente a comunicação.

Dentro mesmo da chamada Escola de Chicago havia nuances de entendimento. Paul Lazarsfeld, contemporâneo de Lasswell, dedicou-se às questões relacionadas à propaganda política. Pesquisando eleições, Lazarsfeld percebeu que a construção da opinião e da percepção, ou seja, os efeitos da comunicação de massa, não se davam de maneira linear e unidirecional, como colocavam seus contemporâneos. Em suas pesquisas ele detectou a existência do que chamou de líderes de opinião, pessoas que recebiam as mensagens e as retransmitiam (adaptando-as) a seu público de influência. Os efeitos comunicacionais, portanto, seriam indiretos, mediados por esses influenciadores de opinião. Que não devem ser entendidos como o apresentador do telejornal ou alguma outra personalidade famosa. Pelo contrário. Todos temos alguém no nosso círculo social que respeitamos a opinião e nos relacionamos como uma autoridade no assunto. A opinião dessas pessoas pode ser tão influente quanto às mensagens veiculadas pela comunicação de massa. O sentido da mensagem, portanto, não está dado de imediato. Há a possibilidade de que esse formador de opinião mude nossa percepção sobre a mensagem ou, pelo menos, nos ajude a interpretá-la. É interessante pensar como isso, de certa forma, ajuda a entender porque pessoas às vezes confiam mais no WhatsApp do que em outros veículos. O fluxo de comunicação ainda é unidirecional e relativamente linear, mas já esboçando algo como uma rede. Essa é uma diferença significativa em relação ao modelo Hipodérmico e, por isso, foi batizado de Two step flow of communication (algo como “fluxo de comunicação em duas etapas”).

O enfoque funcionalista, ao se debruçar sobre os efeitos, acaba pondo muita ênfase no processo da recepção. O líder de opinião, apontado por Lazarsfeld, ainda é um ator que está na ponta da recepção no processo comunicacional. Coube às teorias do jornalismo olharem com mais atenção à etapa de formulação da mensagem. David White, professor da Universidade de Boston, procurava entender quais fatores determinavam que um fato pudesse ser considerado uma notícia ou não (valor-notícia) e, por isso, pesquisava o processo de construção da notícia. Em 1950, na Journalism Quartely, publicou um artigo descrevendo o papel do que chamou de gatekeepers (em tradução literal, “porteiro” ou “guardiões de portões”). O conceito foi empregado originalmente na psicologia social, num estudo sobre como o hábito alimentar das “donas de casa” influenciava a alimentação de toda família. Analogamente, com a expressão White se referia àquelas pessoas que, ao longo do processo de construção da notícia, tomavam as decisões sobre o que deveria ser considerado ou não. E o fato era que ao longo desse processo na estrutura midiática várias pessoas faziam recortes, a começar pelo próprio jornalista ao decidir por trechos das falas de seus entrevistados até o papel dos editores ao decidirem, de fato, o que iria para o jornal ou não. Do fato em si até a notícia, a realidade ia passando por uma série de portões onde alguém decidia sobre o que seria descartado e o que continuaria no processo. Ao final, teríamos apenas um recorte, um enquadramento (framing) do que foi o fato original. Isso explicaria não só como um mesmo fato pode ser abordado por diferentes linhas editoriais coexistentes como se dá o próprio processo de construção da notícia. O mérito dessa abordagem está na demonstração de que a pretensa objetividade e imparcialidade da notícia não era algo tão simples, já que a própria subjetividade do jornalista poderia influenciar na tomada de decisão dos valores-notícia. Tampouco a construção do sentido da mensagem, pelo menos no jornalismo, era um processo simples. Pelo contrário, trata-se de um processo a muitas mãos em que vários atores influenciam decidindo, através de filtragens sobrepostas, o que e principalmente como determinado assunto deve ser retratado na mídia.

Pouco tempo depois, uma nova contribuição veio do que se convencionou chamar de Estudos Culturais, abordagem oriunda dos estudos de Richard Hoggart (As utilizações da cultura), Raymond Williams (Cultura e Sociedade) e E. P. Thompson (A formação da Classe Operária Inglesa). Originalmente na literatura mas rapidamente se expandido para toda área da cultura e sociologia, a abordagem colocava a cultura como um campo de disputa das práticas reguladoras da sociedade. Para essa abordagem, a cultura “popular” ou a “cultura dos de baixo” não seria apenas submissão, mas sobretudo resistência. Uma abordagem similar (feita aqui as ressalvas das polêmicas entre os autores) foi desenvolvida na América Latina por Jésus Martín-Barbero, em seu Dos meios às mediações. Essas compreensões foram incorporadas nos estudos de comunicação a partir das Teorias da Recepção e da Mediação. Segundo essa abordagem, o sentido nunca está dado, mas é sempre construído, ou melhor, disputado e mediado. E nesse processo de construção dos sentidos das mensagens é preciso levar em conta aspectos estruturais (classe social do receptor, família, experiência etc.), institucionais (em que contexto a comunicação acontece, se é na escola, igreja etc.), conjunturais e tecnológicos. Ao contrário das primeiras abordagens comunicacionais, que atribuíam ao receptor uma postura passiva e vazia, a noção de mediação aponta o fato de que todo receptor traz uma experiência social e ideologias prévias ao evento comunicacional. O sentido dessa mensagem seria o resultado construído do embate entre as intenções do emissor e o repertório cultural do receptor. O que, no campo comunicacional, vai se aproximar muito da noção gramsciana de hegemonia e contra-hegemonia. Afinal a cultura (e agora a comunicação) seriam espaços de embate social, logo, de disputa pela hegemonia.
No que pese as diferenças com o marxismo, tal abordagem não é de todo absurda e tem o mérito de apontar para algo que, por mais que pareça óbvio hoje em dia, era pouco considerado nos estudos de comunicação, muito ofuscado pela ideia da comunicação de massa manipulando as massas. A compreensão do código não significa de imediato a compreensão do sentido da mensagem. Todos entendemos a palavra “casa”, mas cada um traz uma experiência de vida do que seja uma casa. Uns na periferia, outros nos condomínios de luxo. O exemplo é trivial mas importante para a comunicação política. Um jovem estadunidense talvez associe “socialismo” a Bernie Sanders e Alexandra Ocasio-Cortez. Uma pessoa mais velha no leste-europeu talvez pense em Stálin ou Josip Tito. Ou seja, o repertório do receptor pode mudar significativamente os sentidos de um processo comunicacional. Mesmo que os escritos iniciais não apontassem para isso, muitas pesquisas que seguiram essa linha caíram em um completo otimismo e acabaram superdimensionando a autonomia do receptor diante do poder do oligopólio dos meios.
Claro que o desenvolvimento da pesquisa em Comunicação não corresponde exatamente à prática da Comunicação. Há certa assincronia aí especialmente pelo fato de que a Comunicação é sobretudo um serviço comercializável. E como tal recebe muita influência de certo positivismo bárbaro oriundo da gestão e administração burguesa. Em 1923, por exemplo, Claude Hopkins já decretava a morte de qualquer coisa que fosse “um jogo na propaganda”. Consolidada como uma ciência – por mais questionável que seja o entendimento dele sobre isso -, Hopkins quis dizer que toda atividade deveria ser mensurada e catalogada, assim como todo o comportamento do consumidor deveria ser estudado. Feedbacks, pesquisa de opinião, grupos focais superariam em muito qualquer noção intuitiva de comunicação. E isso vale igualmente para os programas televisivos ou radiofônicos que sempre receberam cartas de sua audiência, fizeram pesquisas de opinião, ou quadros jornalísticos do tipo “o povo fala”. Se por um lado a pesquisa sociológica da comunicação de massa demorou para reconhecer a não-passividade do receptor, a comunicação-serviço sempre buscou entendê-la com o pretexto de melhoria contínua e eficiência.
Revolução digital e comunicação por algoritmos
Esse é o contexto do pensamento comunicacional que antecede a revolução provocada pela chegada da internet ao mundo civil em um primeiro momento e o da criação das chamadas redes sociais, posteriormente.
A revolução tecnológica provocada pela internet é justamente a ruptura com os limites físicos da comunicação de massa. Não que os limites físicos deixem de existir, mas passam a ser irrisórios perto do que eram antes. O espectro eletromagnético possui limites físicos que objetivamente põe um limite no total de rádios e canais de TV que podem operar em uma determinada região. Daí a distribuição regional e a necessidade de regulação do Estado por meio das concessões públicas. Isso sem falar nos custos de infraestrutura para emissão de tais sinais. Igualmente custoso e trabalhoso é a impressão e distribuição de papel impresso, que exige todo um aparato e logística para chegar às pessoas. A infraestrutura necessária para a internet é igualmente física e tem seus limites. Mas ao contrário, apesar de cara pode ter seu custo diluído por uma infinidade de usuários que a consomem como serviço e, o mais importante, pode ser expandida e melhorada continuamente com o desenvolvimento tecnológico. Objetivamente, a internet barateia os custos de comunicação e expande seus limites.
É verdade que estamos longe da sonhada universalização. A exclusão digital é um fato. Mas isso se deve principalmente pelas contradições do capitalismo, não as da tecnologia ou do limite físico. A internet criou as bases objetivas para uma comunicação universal, mas que existe apenas em potencial porque o capitalismo nos impede de chegar lá. Apesar das contradições, assistimos nas últimas décadas à proliferação de dispositivos capazes de alguma forma de comunicação. Mesmo quando não se trata de comunicação entre seres humanos, como computador e celular, vemos o aumento da comunicação entre máquinas com indústrias conectadas, automação da produção e linhas de produção coordenadas dispersas pelo globo.
A internet propiciou a expansão da nossa capacidade comunicacional. Isso é inegável e a proliferação de dispositivos conectados ao nosso redor é o sintoma. Mas o aumento dessa capacidade implica, necessariamente, no aumento exponencial do volume de informação em trânsito. Estimativas apontam que a cada minuto cerca de 500 horas de vídeo é subido para o YouTube. É humanamente impossível lidar com a quantidade de informações que despejamos no mundo. Por isso, o passo lógico no desenvolvimento tecnológico foi a criação de algoritmos capazes de lidar com tudo isso. O que chamamos de algoritmo hoje em dia nada mais é do que uma máquina treinada para lidar com toda essa informação. É quase um passo natural e inevitável do aumento de capacidade comunicacional que atingimos.
Algoritmos não são essencialmente maus, como pintam alguns ludistas digitais. Algoritmos são necessidades humanas para uma realidade objetiva: excesso de informação a ser organizado. O problema político começa justamente quando a infraestrutura da internet é monopolizada por empresas privadas, de altíssima concentração de capital, e os próprios algoritmos passam a ser desenvolvidos como segredos empresariais por essas corporações, sem a mínima possibilidade de controle social ou simplesmente auditoria dos processos envolvidos. Mais uma vez, a contradição é do capital, não da tecnologia.
Mas o que fazem exatamente esses algoritmos? Basicamente, na tentativa de estabelecer uma ordem racional em meio ao caos informacional, essas fórmulas matemáticas tentam emular mais ou menos todas essas características do processo comunicacional que apontamos na seção anterior. Redução de ruído, coleta de feedback, mensuração de comportamento do receptor, processo de seleção da informação (gatekeeper, convertido no digital em gatewatcher), reconhecimento das experiências sociais prévias dos receptores e como isso influencia na construção dos sentidos da mensagem (daí a formação de bolhas), etc.
Enfim. Todas essas dimensões do processo comunicacional já existiam, eram reconhecidas e trabalhadas no analógico. Todas as características dos algoritmos já existiam em potencial lá, mas eram executadas separadamente e eventualmente, por equipes humanas. O que a mediação por máquinas fez foi justamente uma espécie de síntese de todos esses processos, mas que passa a operar permanentemente sem o trabalho humano direto. Soma-se a isso a proliferação e barateamento de dispositivos, pondo de cabeça para baixo o que até então era um fluxo linear e descendente de comunicação. O aumento gigantesco da nossa capacidade comunicativa, o aumento exponencial da quantidade e informação disponível e o processo permanente de otimização e melhoria. A internet é herdeira do século XX, mas põe ele de cabeça para baixo. No melhor sentido dialético, é uma síntese e um salto qualitativo em relação a tudo que vínhamos desenvolvendo em Comunicação enquanto humanidade.
Impactos no consumo da informação
Todas essas transformações, objetivamente, provocam impactos culturais e nos hábitos de consumo de informação. Mesmo desde o começo da internet muita coisa mudou até agora. Antes tínhamos momentos específicos de conexão, quando ela era mais barata ou não se precisávamos usar o telefone. Hoje ninguém mais diz “entrar na internet“. As pessoas simplesmente dizem “olha no Google aí” porque a conexão é presumidamente permanente. Estamos conectados 24h por dia e rodeado de dispositivos. Assistimos TV com o celular na mão. Os fluxos comunicacionais na rede são difusos e transcendem a própria rede em processos transmidiáticos: começa em um canal e termina no outro. Enquanto assistimos reality shows na TV votamos na eliminação de um participante na internet. Comemoramos gols nas redes sociais. Olhamos o produto na loja e compramos pela internet. Assistimos reviews e unboxings no YouTube antes de comprar um eletrodoméstico. Escolhemos um restaurante mas antes de pedir olhamos as avaliações e os comentários. As contribuições para o entendimento e a construção de sentido das mensagens vem de todos os lados, dos influenciadores, das avaliações, dos comentários, etc. Nós mesmos não estamos mais presos à camisa de força da comunicação de massa. Interagimos, comentamos, compartilhamos etc.
Não acho que a internet seja o bastião da democracia. Como já dissemos acima, a relativa democratização só é possível porque vem acompanhada de uma ainda maior concentração e monopolização da infraestrutura. A força dos próprios monopólios midiáticos do século XX se refletem em força política nas redes. Mas é inegável que eles não têm mais a mesma força de antes. Um fenômeno nas redes podem sim pautar a televisão. A existência da internet obriga a todos os outros meios a se adequarem a ela.

Pensar a Agitação e a Propaganda
E a Agitação e Propaganda não existem fora do mundo, pelo contrário, servem para intervir nele. Como então pensar a agitprop um um ambiente informacional caótico, instável e volátil? O ambiente controlado de uma mensagem unidirecional não existe mais. Não existe consumo de informação a partir de uma única fonte e, portanto, é ingenuidade pensar que nossa periferia política se informa apenas por nossos meios. Não era assim antes, pouco provável que seja hoje. Um panfleto nunca foi suficiente para formar um comunista. Com panfletos, abrimos contatos e oferecemos jornais. Propomos encontros. Cursos de formação. Participamos de atividades e plenárias do movimento. Editamos livros e revistas. Realizamos seminários. Mesmo no mundo analógico, o processo de formação de militantes leva tempo, envolve diferentes mídias e se dá através de um longo processo com diferentes etapas.
No mundo digital não é diferente. Precisamos conversar com as pessoas. Assim como um panfleto não basta, uma postagem não transforma ninguém em comunista. Precisamos pensar ações para abrir contatos. Oferecer nosso site. Propor encontros virtuais. Produzir cursos online e materiais de formação. Editar filmes e e-books. Realizar plenárias, transmissões ao vivo etc. Mapear contatos, medir resultados, caracterizar processos, acumular inteligência, fazer balanço. O processo é exatamente o mesmo que fazíamos antes, mas agora com outras ferramentas. Ferramentas digitais.
Se as pessoas estão multiconectadas, precisamos criar diferentes pontos de contato e conduzir essa pessoa em meio a esse oceano caótico de informação. A lógica não pode ser de jogar garrafas com mensagens ao mar esperando que alguém as encontre. Devemos jogar boias com cordas, sinalizar caminhos, orientar a navegação. Como conduzimos uma pessoa de uma postagem para um texto analítico? Como levamos uma pessoa de um texto de propaganda para um texto teórico? Como tiramos uma pessoa da rede e pomos em contato com o partido? Como tiramos uma pessoa da plataforma de cadastro e a colocamos em uma atividade de formação? Como pegamos essas pessoas e colocamos para dentro da organização? Esse fluxo precisa ser desenhado, testado e cada uma dessas etapas demanda materiais próprios, debates, possui métricas a serem medidas, feedbacks para serem ouvidos e processos a serem melhorados.
Mas a mediação por máquina desses processos coloca novos desafios. Antes buscávamos caracterizações para pensar como escrever um panfleto, qual abordagem usar em determinada palestra, qual atividade propor para intervenção em determinada estrutura, que livro sugerir para o contato político a depender de seus interesses. Hoje, gostemos ou não, precisamos considerar o fato de que grande parte da informação é filtrada por máquinas. Não basta que nosso público entenda, é preciso que as máquinas não nos bloqueiem nos filtros de curadoria. Muitas técnicas entram aqui como as boas práticas de escrita e programação, arquitetura adequada de informação, determinados formatos. Do ponto de vista da técnica, é preciso compreender a dinâmica dos algoritmos assim como precisamos conhecer a dinâmica de nossos contatos políticos e “amarrá-los” politicamente. Não basta indicar um monte de livros para o contato, assim como não basta simplesmente postar. É preciso sensibilidade política no primeiro caso e cuidados técnicos para o segundo.
E o entendimento do processo comunicacional como um processo político, um fluxo com várias etapas, põe por terra a falsa oposição entre impresso e digital, entre físico e virtual. Essa separação não existe, são dimensões sobrepostas e o esforço vai justamente no sentido oposto. Como trabalhar todos esses meios de maneira sinérgica? Nesse caminho pelo qual queremos conduzir nossa periferia política todos os meios são válidos desde que nunca percamos a estratégia, é essa clareza que mantém tudo conectado. Não importa se a conversa foi na porta da fábrica ou pelo aplicativo, se o contato foi aberto com uma panfletagem ou por uma postagem.
Um desafio? Sem dúvida, mas não necessariamente obstáculo. Podemos nos deixar tragar por esse mar revolto a atuar anarquicamente ou podemos ser disciplinados e científicos. Um preço justo diante de todas as oportunidades. Os custos para produção de propaganda nunca foram tão baixos. Podemos atingir pessoas em pólos industriais onde não temos militantes, a quilômetros de distância da célula mais próxima. Abrir contatos internacionais sem o risco das fronteiras. Podemos reunir centenas de pessoas sem horas e horas de transporte. Podemos automatizar processos, distribuir materiais com ajuda de inteligência artificial. Coletamos cadastros de simpatizantes todos os dias e em qualquer horário. Todos precisam ser especialistas e dominar todas as técnicas? De maneira alguma. Essa é uma tarefa do partido de conjunto e exige esforço coordenado. Nacional e regionais não devem competir entre si para um mesmo fim. São pontas de um mesmo processo e perseguem o mesmo objetivo.
Os elementos essenciais para pensarmos a Comunicação já estavam postos antes do digital. A confusão toda vem do fato de que ao invés de um momento, a comunicação passa a estado permanente, o que dificulta o processo de planejamento. Em meio ao caos informacional, cada boa prática e cada capricho importa. E se a internet revolucionou tudo isso, as atividades centrais dos militantes continuam as mesmas: fazer agitação e propaganda, organizar a classe e construir o partido revolucionário. Seja com papel impresso, seja com comunicação digital.
REFERÊNCIAS
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HOHLFELDT, Antonio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera Veiga. Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.
HOPKINS, Claude. A ciência da Propaganda. São Paulo: Cultrix, 1966.
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