Ciro Marcondes, em seu O Capital da Notícia, nos ensinava que o jornal e o jornalismo, enquanto empreendimentos capitalistas, se desenvolvem sobre a constante contradição entre a informação – tratada como serviço de utilidade pública -, e a notícia como mercadoria. A notícia como utilidade pública atrai leitores que, por sua vez, valorizam os espaços publicitários que o jornal comercializa. Afinal, o número de leitores é o grande argumento dos media kits enviados aos anunciantes em potencial. Por outro lado, o volume de publicidade tira, literalmente, espaço do jornalismo. Há uma verdadeira Guerra Fria entre o departamento de jornalismo e o departamento de marketing para a justa proporção em um jornal. Ao ponto que Ciro Marcondes chega a afirmar que, do ponto de vista comercial, o ideal seria um jornal sem notícias, apenas com espaço publicitário.

A época de ouro das assinaturas de jornal, na virada do século XIX para o XX, é a exceção, não o padrão da história. Via de regra, os jornais se financiam pelo espaço publicitário, não pelas suas assinaturas. A contradição entre a utilidade pública e a mercadoria é, portanto, a chave para o entendimento da questão do financiamento dos jornais. E entender a crise do financiamento é entender a crise dos próprios jornais, especialmente em tempos de rede sociais, onde grandes empresas como Google e Facebook monopolizam as receitas de venda de anúncios. Para se ter uma ideia, segundo o Conselho Executivo de Normas-Padrão, o investimento em publicidade na internet no Brasil cresceu 30% entre 2019 e 2020, saltando de R$3,65 bilhões para R$4,73 bilhões. Em contrapartida, o investimento junto a empresas jornalísticas (considerando seus espaços virtuais também) caiu de R$591 milhões para R$347 milhões no mesmo período.

Portanto, a disputa pela economia da atenção entre redes sociais digitais e veículos tradicionais da imprensa são apenas a aparência do fato. O que está em jogo por trás disso tudo é a valorização de espaços publicitários e, consequentemente, a capacidade de abocanhar uma fatia expressiva dos investimentos publicitários.

Caso Folha

Em fevereiro de 2018 o jornal Folha de S. Paulo anunciou que deixaria de publicar conteúdo no Facebook. Apenas em julho deste ano, 2021, é que o veículo decidiu retomar suas atividades nas redes sociais. A comparação entre as notas publicadas pelo próprio jornal são interessantes.

Em sua nota de despedida [1], o jornal criticava as então recentes mudanças no algoritmo da rede que passaram a privilegiar conteúdos de amigos próximos [2] em detrimento das páginas institucionais e jornalísticas. Segundo a Folha, “As redes sociais, que poderiam ser um ambiente sobretudo de convívio e intercâmbio, são programadas de tal modo que estimulam a reiteração estéril de hábitos e opiniões preexistentes“. Mas o mais importante está ao final do texto, quando o assunto é o Instant Articles. O recurso incorpora os textos de sites externos em nome de uma melhor velocidade e experiência do usuário. Mas, o que acontece na prática, é que ao transferir o conteúdo para a rede social o jornal perde não só a capacidade de cobrar pelo acesso como também perde o público dos espaços publicitários que vendia em seu site. É uma desvalorização. É dinheiro que está em jogo.

Já em julho deste ano, quando retornou à plataforma [3], a Folha não encontrou um algoritmo diferente do de 2018. Pelo contrário. Contudo, em sua nota de retorno saudou os investimentos em jornalismo feito pelo Facebook e, principalmente, a mundana na regra de negócios da plataforma que passou a permitir o chamado paywall, ou seja, a cobrança por acesso ao conteúdo.

A preocupação da Folha, enquanto empreendimento de mercado e com seu compromisso com a lucratividade, sempre foi, em primeiro lugar, as regras de negócio e depois o problema do jornalismo e das fake news.

Nesse ínterim, a Folha de S. Paulo ainda deu trabalho para seus ombudsmans ao publicar, no dia 23 de fevereiro e junto com outros grandes jornais do país, o “Manifesto pela Vida”, um “informe publicitário” defendendo o tratamento precoce contra Covid-19. Jornalistas que desde o começo da pandemia se arriscam e se esforçam para desmentir informações falsas sobre a doença e toda sorte de negacionismo se viram traídos pelo departamento comercial que viu tudo na maior naturalidade. Flávia Lima, a ombudsman do jornal no momento, escreveu: “É desanimador combater desinformação na página par e disseminá-la na ímpar”. Caso ilustra bem a contradição entre a mercadoria e a utilidade pública.

O dilema das redes

De maneira similar aos jornais, as vultosas cifras de lucro das redes sociais – enquanto empreendimentos de mercado – vem da venda de espaços publicitários para anunciantes. Claro, a situação aqui é qualitativamente diferente dos jornais impressos já que não há para as redes o limite físico da página impressa bem como a capacidade de coleta de dados do público são infinitamente maiores.

A diferença maior entre os dois empreendimentos está, portanto, não no que vendem – espaço publicitário valorizado pelo fluxo de público – mas justamente no que entregam para o público para reter sua atenção. Enquanto os jornais se preocupam com critério do bom jornalismo como a seriedade na apuração, veracidade dos fatos, aproximação da imparcialidade, as redes sociais simplesmente estão preocupadas em entregar aquilo que cada vez mais prende a atenção do usuário – em geral – entretenimento, sensacionalismo e outros absurdos. Aqui se expressa a contradição no nível da aparência, como mencionei no começo do texto. Em  verdade, para as redes sociais, que apostam no consumo de informação sem critério, o bom e velho jornalismo não passa de uma chatice da geração boomer.

Ora, e qual a conclusão lógica desse fato? É que naturalmente, pela própria natureza do modelo de negócio das redes sociais, conteúdos informativos, jornalísticos e institucionais tendem a ser diminuídos para que entretenimento rápido seja privilegiado. Entretenimento para prender a atenção, rápido para proliferarem os espaços publicitários. É a lucratividade que está em jogo.

Já escrevi neste site sobre algumas distorções que temos sobre coberturas midiáticas [4] e pontuei sobre como isso se aplica às supostas perseguições ideológicas por parte dos algoritmos. Arrisco dizer que não há um indivíduo no mundo político que um dia não tenha se queixado do tratamento recebido pelas redes sociais.

Vejam, não quero com isso diminuir as suspeitas reais de privilégio a determinados conteúdos ou assessoria especializada oferecida pelas próprias plataformas a determinados grupos. Mas o simples fato de que o conteúdo perder força não indica perseguição (no máximo, um delírio persecutório). É um fato lógico que com o aumento do volume de conteúdo publicado critérios mais rigorosos sejam aplicados pelos algoritmos. Em outras palavras, aumenta a concorrência e todos os conteúdos perdem de conjunto. Precisam de mais para sobreviver. E no caso dos conteúdos políticos e institucionais isso é ainda mais forte, já que – como argumentei – constituem um tipo de conteúdo pouco interessante para o modelo de negócio das redes sociais.

A crítica para além do like

Na mesma semana em que a Folha de S. Paulo anunciou seu retorno para o Facebook, o diretor da rede vizinha, o Instagram (também do grupo Facebook) anunciou mudanças para reposicionar a rede [5] diante do TikTok, a concorrente chinesa. Entre elas, a mais significativa talvez, tenha sido a priorização de vídeos que geram entretenimento. Daí as mudanças no Reels, dentro do Instagram. Algumas semanas depois não era preciso gerenciar uma grande conta na rede para perceber a mudança. E, claro, isso afeta especialmente e em cheio o conteúdo que não é entretenimento, leia-se, jornalístico e institucional. A mudança do Instragram segue a lógica das mudanças adotadas pelo Facebook, em 2018, quando a Folha decidiu deixar a rede.

Não se trata aqui, obviamente, de minimizar a responsabilidade das redes sociais de suas respectivas parcelas de culpa diante de tudo que estamos assistindo no mundo. A perda de relevância do conteúdo jornalístico e institucional nas redes sociais acontece naturalmente pelo crescimento das próprias redes e deliberadamente por conta do modelo de negócio das redes. Cedo ou tarde, toda rede social que queira sobreviver enquanto negócio capitalista precisa tomar medidas nesse sentido. Essa é uma parte fundamental do dilema das redes enfrentado pelo jornalismo nos dias de hoje. Pode-se aceitar a imposição da forma e conteúdo e transformar-mos todo o jornalismo em infotenimento, ou podemos buscar perspectivas críticas. Mas a crítica das redes sociais que de fato mire a superação do problema precisa considerar dilemas para além dos algoritmos. Modelo de negócio talvez seja um deles.

 

[1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/02/folha-deixa-de-publicar-conteudo-no-facebook.shtml

[2] https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/facebook-muda-feed-de-noticias-para-aumentar-posts-de-amigos-e-parentes.ghtml

[3] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/07/folha-volta-a-publicar-conteudo-no-facebook.shtml

[4] http://www.observatoriodaimprensa.com.br/imprensa-em-questao/a-midia-hostil-e-outros-delirios-persecutorios/

[5] https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2021/07/02/instagram-sera-o-novo-tiktok-veja-mudancas-no-aplicativo.htm

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *