Certa vez ouvi em uma comunicação sobre os contos de Guimarães Rosa que nosso destino era o Sertão. Fiquei mobilizado porque faz sentido. O projeto colonial faz sua expansão da fronteira para fora. Nós, como nação colonizada, ao contrário, fazemos nossa expansão da fronteira para dentro. Todo nosso esforço para “expandir o país” foi sempre da fronteira para o interior: bandeiras, missões, marchas para oeste e transamazônicas. Nosso destino manifesto enquanto povo-nação é a conquista desse Sertão. É domar esse nosso interior selvagem.

Nessa marcha interiorana nunca se vai sozinho. As galinhas por necessidade. Os cachorros pela companhia. E o trabalho pesado fica para o boi.

Pobre boi. A ele devemos a formação de nosso sertão. Na medida em que a ocupação colonial buscava produzir commodities agrícolas para a exportação, todas as terras litorâneas foram sendo destinadas a isso e todos os caminhos apontavam ao porto. O Ciclo do Gado, por outro lado, estava vinculado à subsistência e ao mercado interno. Vetor de interiorização e integração econômica. Grandes autores como João Capistrano de Abreu (Capítulos de História Colonial), Caio Prado Jr. (Formação do Brasil Contemporâneo), Sérgio Buarque de Holanda e outros reiteraram a importância dessa “Civilização do Couro”.

Dessa materialidade do boi vão surgir toda sorte de expressões culturais. O gaúcho platino, o vaqueiro nordestino e, em menor medida, o caipira da paulistânia (pelo tropeirismo, ainda que pelas mulas) são todos filhos da pecuária e do gado. Essas expressões simbólicas são de uma beleza ímpar. Uma beleza que Guimarães Rosa captou como poucos. O sertão roseano não é o espaço físico, histórico e geológico: é o espaço simbólico, mítico e existencial.

Mítico porque na estrutura mítica a ideia de algo nunca se desvincula totalmente da sua materialidade sensível. O boi mítico não é o animal, mas a ideia e o que ele representa, embora nunca se desvincule por completo do animal boi. Vai além sem nunca deixar de ser.

Ali, boi nunca foi só carne. É também cultura. Estômago e Espírito são alimentados pelo boi.

Mário de Andrade dedicou-se intensivamente ao estudo do boi e dizia se tratar do “bicho nacional por excelência”. Chegou a fazer importantes estudos sobre as danças dramáticas e o Auto do Boi – muito difundido no Brasil –, especialmente o Bumba-meu-boi. Auto, aliás, que narra a morte e ressurreição do boi. O boi é o artífice da vida sertaneja, é ele que com a morte entrega a vida, fazendo esse ciclo se sustentar.

O boi é também mediação moral. Às vezes diretamente, como na história do negro Soberano de Tião Carreiro e Pardinho, onde o boi mesmo é o sujeito da ação moral. Às vezes o boi é o meio pelo qual ela se expressa. “Esse aí nunca foi vaqueiro”, se queixou um espectador ao ver o vaqueiro desistir de ir caatinga adentro atrás do bezerro. Se o boi é mediador da vida sertaneja, desistir de agarrá-lo com as mãos é de alguma maneira um problema de fraqueza moral.

…Deus está em toda parte, nas folhas das árvores como na barriga do boi“, escreveu Mário de Andrade em O irmão boi (Estado de S. Paulo, 1938), em um debate inusitado sobre São Francisco e a Arte Medieval.

Pobre boi. Agradecemos a ele com puxões de rabo, topadas, tropicões e gravatas. E ele segue lá, com seus olhos indiferentes mesmo na carreira pela caatinga.

Organizador espiritual por excelência, na Missa mesmo o boi fica de fora. A verdade é que o cristianismo teve que se curvar ao boi, mas, por orgulho, a missa ficou sendo só do Vaqueiro. Ali, só cavalo.

Na média, todos os cavalos se parecem. Assim como os vaqueiros. O ocre do gibão brilha como cobre sob o Sol. Igualmente brilha cobreada a pele queimada. E, se havia alguma diferença com a cor do cavalo, tudo vai ficando mais sutil com poeira vermelha que vai grudando no suor. O chapéu e as roupas grossas fazem sombras duras. Estacionam sempre de costas para o sol.

Às vésperas do Em nome do Pai, porém, iam aparecendo tipos diferentes. As roupas eram leves. Secos. Não tinham uma gota de suor. Sinal de poeira não havia. A preferência era pelo couro branco reluzente, para combinar com os cavalos albinos, e faziam questão de botar a cara no sol. Pessoas de “boa digestão” – para ficarmos com a expressão de Mário de Andrade e também com a barriga.

Na missa em que o boi não entra, senta no fundo o vaqueiro.

Na linha de frente vêm os mais bem iluminados, alvos, precedidos por uma legião de social-medias, drones, babões e eu ali junto como mais um. Não são bem vaqueiros, é verdade, mas procuram celebrar. São políticos e coronéis de todo tipo. O mais próximo que chegam disso, talvez, seja mandando instalar os outdoors de Bets e Vaquejada que aos poucos vão brotando no caminho.

Paulatinamente, a missa vai ganhando ares de festival. Espaços instagramáveis, letreiros, souvenires, shows, excursões. É a tensão real da civilização que marcha para domesticar seu interior selvagem. A Missa tenta domesticar o espontaneísmo da fé selvagem. Os políticos tentam domesticar seus currais eleitorais. E a indústria turística tenta domesticar a missa. Seguro mesmo, só Deus, esquecido na barriga de algum boi do lado de fora.

Mas se isso soa como uma disputa entre o autêntico e o artificial instrumentalizado, essa tensão é apenas aparente. É poeira de romantismo grudada na testa. Como sotaque e ideologia, autenticidade é uma categoria de quem olha e classifica de fora: só os outros têm. Tradições são sempre invenções contemporâneas e comunidades são sempre imaginadas.

Não que a tensão não exista. Ela existe, sobretudo, no âmbito dos sujeitos sociais. E de alguma forma a diferença entre cavalos brancos e cavalos marrons, roupas brancas e roupas marrons, expressa isso. Políticos, assessores e subcelebridades constituem um sujeito social diferente dos vaqueiros que, de fato, vivem hoje da lida com o gado. Mas isso não significa que os segundos sejam mais puros, autênticos ou primitivos. Não se compreende o fato pela sua aparência. Até porque quem estava ali procurando couro e fé eram os outros como eu. Diz muito mais sobre o olhar estrangeiro do que sobre eles mesmos.

Um dia antes da Missa, fotografei um menino de boné vermelho. Um boné de Bet. “Não fotografa ele, não, tio, que ele só quer farmar aura“, zombaram os amigos. Eles tinham razão. Muitos drones sobrevoavam a vaquejada. Os vaqueiros pareciam bem tranquilos com todas as câmeras. Sinal de que o evento já era midiatizado de antes.

No fim, todo mundo estava ali para olhar ou ser olhado. Isso é o que todos nós tínhamos em comum. Eu com minha câmera (também fiz meus stories), o coronel do couro branco pondo a cara no sol, o menino da Bet ou os drones sobre a vaquejada. O único que não olhava era o boi, com seus olhos indiferentes. Nem era olhado, porque não se pode olhar dentro da barriga do boi. Boi sente frio na barriga quando tá com medo? Isso era o que tinha de mais autêntico ali.

Ê, boi. Pobre boi.