A crença se sustenta pela necessidade de acreditar. Não pelos fatos.

Diante da incerteza de uma existência caótica e sem sentido, a humanidade sempre buscou construir suas metanarrativas que colocassem uma ordem – pelo menos em discurso – nesse mundo hostil e aleatório.

Na antiguidade eram as religiões. Religiões tem pouco de realidade, mas muito de quem acredita. Achar que há um plano para nossa existência individual e que isso será recompensado numa vida eterna após a morte ao lado do Pai diz mais sobre a insegurança, desamparo e medo de morte de quem acredita do que sobre o paraíso em si.

Ao processo de desenvolvimento das religiões acompanhou-se a formação de grandes instituições que zelam e sustentam essas narrativas. São as igrejas, como chamamos hoje. E a existência dessas instituições sólidas acaba contribuindo para um refinamento filosófico dessas narrativas que vão se tornando mais robustas.

Agora, o que acontecem quando as instituições e suas narrativas entram em colapso e começam a decair?

As narrativas entram em colapso junto com as instituições que as sustentam. E vejam, é a narrativa que colapsa, mas a necessidade de acreditar permanece no indivíduo.

Esse indivíduo volta ao desamparo primordial diante de um mundo novamente caótico e – agora na contemporaneidade – decadente. É aqui que entram as fake news e, especificamente, as teorias conspiratórias.

Teorias conspiratórias não passam de crenças e, como toda crença, se sustentam pela necessidade de acreditar. Não pelos fatos. Quem já discutiu com um terraplanista sabe que argumentos não tem o mínimo efeito ali. Não é ciência. É crença.

Nossa sociedade tem gerado pessoas inseguras e ansiosas. Uns dizem que é mimimi, outros que é culpa das redes sociais. Pode ser, mas o que importa aqui é que ansiedade e insegurança é terreno fértil para metanarrativas que possam aplacar esse sofrimento. E isso tudo é elevado exponencialmente com a crise.

O problema é que, em meio à crise econômica e política mundial, não há instituições sólidas e críveis para oferecer essas metanarrativas. A solução é o mercado paralelo: conspirações.

Ao contrário das religiões que foram acompanhadas pela solidificação de instituições, as teorias da conspiração são acompanhadas pelo colapso institucional. Por isso são muito mais pobres filosoficamente e se reproduzem por cissiparidade. Importamos e exportamos as mesmas conspirações que se adaptam facilmente à realidade local. Veja, por exemplo, a importação que o Brasil faz da teoria QAnon.

Ou seja, narrativas religiosas e teorias conspiratórias se baseiam, em essência, no mesmo processo. Mas são fruto de processos sociais diferentes. A primeira é fortalecida pela solidez institucional e a secunda cresce nos escombros das instituições. Mas no fundo é a mesma coisa.

Vide o cristianismo. Acredita que lá nas nuvens há um trono onde se senta um velo barbudo fazendo planos simultâneos para 7 bilhões de pessoas. Esse velho uma vez terceirizou para uma pomba a fecundação de uma virgem que gerou seu filho, usado em um ritual de sacrifício para um novo pacto de paz com a humanidade. Porque isso é aceito socialmente mas duvidar das vacinas não (que, convenhamos, é muito mais plausível do que o primeiro)? Entendo que a diferença são as instituições por trás.

Enfim, isso só deve ser superado quando as instituições voltarem a serem sólidas. Só resta saber se serão essas que estão aì, regeneradas da atual crise, ou se serão novas instituições.