Hoje o jornal El País se despede de seus leitores brasileiros. Na nota publicada, os editores alegam que a sucursal tupiniquim não “alcançou sua sustentabilidade econômica“. É verdade que há tempos os jornais impressos não conseguem se sustentar com vendas em bancas e assinaturas. Já discuti em outros textos (aqui [1] e aqui [2]) o fato de que a publicidade é a principal fonte de renda dos jornais e como isso leva à uma contradição inerente entre o jornal mercadoria e a o jornalismo como utilidade pública. Mas diante do fato fiquei me perguntando o que levaria uma empresa grande como El País não conseguir se manter vendendo jornalismo em um país como o Brasil.
Sabendo que tanto as publicidade governamental, de utilidade pública e de empresas estatais são grandes aportadoras, resolvi dar uma olhada nos dados da Secretaria de Comunicação do Governo, acreditando que pudesse, talvez, achar alguma coisa sobre o El País por lá. Mas não achei. Achei, contudo, outros dados que sistematizo aqui
Todos os dados são do Sistema de Informação de Pagamentos e Execução contratual da Secom e também do Portal da Transparência. Tudo está baseado no valor bruto nominal – então deve haver diferenças para os valores executados na realidade.
Gastos do publicidade do governo estão dentro da média
Apesar de Bolsonaro e seus seguidores alardearem por aí que o governo “não precisa de marketing” e que a “mamata” da imprensa iria acabar, não é o que mostra os dados da Secom. Segundo o próprio órgão, os gastos da atual gestão estão dentro da média dos últimos sete anos.
O destaque aqui é para o ano de 2018 (gestão Temer) em que o valor gasto com publicidade quase dobra.Uma hipótese forte é o fato de se tratar de ano eleitoral, ainda que pese o fato de que Temer gozava de uma popularidade no “volume morto” e seu candidato, Henrique Meirelles, mesmo com a campanha oficialmente mais cada do pleito, tenha pontuado tanto quanto um partido ideológico. Um dos valores destoantes é o montante gasto com pesquisas no ano, quase dez vezes maior do que no ano passado.

Gastos com rádio e internet seguem flutuações
Segundo os dados da Secom, não parece que o governo Bolsonaro privilegie a internet. Pelo menos não da distribuição de verbas oficiais, pelo menos (a disputa política do bolsonarismo como força política é outra história). O valores absolutos de verbas flutuam dentro de um padrão alternando um ano com grande investimento seguido de um ano com investimento mais baixo. 

Igualmente estável são os gastos declarados da Secom com publicidade em rádio. Mais uma vez o ponto fora da curva é 2018, com um gasto duas vezes maior do que a média dos outros anos.

Gasto com televisão deu um salto este ano
No que diz respeito aos gastos oficiais com televisão é preciso fazer uma ponderação. Aqui, de fato, houve uma interferência política por parte do governo na distribuição das verbas. A Rede Globo, mesmo sendo a primeira colocada em audiência no país, acabou ficando em terceiro lugar na distribuição das verbas tanto em 2019 quanto em 2020. No entanto, no final deste ano a Rede Globo recuperou a primeira posição após uma determinação do Tribunal de Contas da União que obrigou o governo a rever a distribuição conforme critérios de audiência. Segundo o TCU, o governo estaria usando um critério político para a distribuição de uma verba pública.
Além disso, pontuo o fato de que a verba para a televisão quase dobrou entre 2020 e 2021. Os valores absolutos que a Secom destinava para a televisão vinham caindo desde 2017. Em termos relativos a tendência era de queda desde 2014. Este ano, no entanto, deu um salto e voltou a ser responsável por metade do dinheiro gasto pela Secretaria.


Verbas para jornais impressos praticamente se extinguiram
O dado mais gritante deste breve levantamento é, sem dúvidas a queda dos valores destinados aos jornais impressos. Se de fato o governo Bolsonaro “fechou a torneira” em algum lugar, foi aqui. A mídia que chegou a receber mais de 6% de todo orçamento da Secom em outros anos, em 2021 não atingiu 0,2%. De quase R$16 milhões em 2018 para menos de 1 em 2021. Não é preciso dizer que grandes jornais impressos como O Globo, Folha de S. Paulo e Estadão sequer estão na lista.
Para se ter uma ideia, o governo Temer chegou a destinar R$1,2 milhão para o Grupo Folha em 2017. Em 2021 ainda não existem dados registrados para esse grupo (e nem deve haver). A redução é tão drástica que não há motivo que não seja político para justificar tamanha mudança. Sequer a pandemia pode servir de argumento, visto que a mudança já se dá no ano de 2019.


Mídia exterior aumenta a fatia
A pergunta óbvia a ser feita é: para onde foi o dinheiro da mídia impressa? Ao que tudo indica, nesse levantamento rápido, o valor foi abocanhado pela categoria de “mídia externa”. Não há uma definição clara do que seja isso, mas uma olhada no nome das empresas beneficiadas indica se tratarem de empresas de outdoors e mídia out of home (OOH – essas TVs e painéis digitais instalados em termômetros e pontos de ônibus). Ao que tudo indica – pelo nome indicado das campanhas – grande parte se destinou às necessidades da pandemia. Por motivos óbvios, não vou me referir à isso como campanhas “de conscientização” do governo.
É verdade que a tendência de todo o período foi de crescimento do montante relativo destinado a esse tipo de mídia, mas os níveis alcançados nesse governo são os mais altos.


Apontamentos
Esse é um levantamento rápido e sem muito compromisso, meramente quantitativo, então toda indicação é delicada. Entre 2020 e 2021 há um salto na verba destinado aos veículos regionais. O valor é maior do que em 2019 também mas parece estar dentro da normalidade. Outro fato importante é que desapareceram da lista dos beneficiários, nos últimos dois anos, os que se enquadravam como “mídia alternativa”. Embora essa categoria não deva ser entendida no sentido político que habitualmente estamos propensos a entender.
Algo que mereceria ser olhado com calma, e talvez desse maior entendimento político sobre essas mudanças, seria uma análise qualitativa do perfil das empresas beneficiadas por esse orçamento e como esse perfil mudou ao longo das gestões.
Mas fato é que a mudança na verba destinada aos jornais impressos não parece ter justificativa conjuntural senão uma escolha meramente política. Que o atual governo não é chegadona apuração de fatos todos sabem. O caso só corrobora.
[1] O pato da Fiesp não matou o jornalismo
[2] Dilema das redes: o modelo de negócio

